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domingo, 28 de julho de 2013

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18ª Entrevista: Maria Teresa Maia Gonzalez (escritora)



Maria Teresa Maia Gonzalez

Maria Teresa Maia Gonzalez é uma autora que dispensa apresentações! No passado dia 26 Julho de 2013, fomos gentilmente convidadas pela Editora Babel para a entrevistar. Foi um privilégio enorme conversar e aprender com uma escritora que tanta “companhia” nos fez durante a adolescência, graças a todas as obras que lemos da autora. Vamos então conhecê-la um pouco melhor. 

NOTA: A entrevista foi feita presencialmente e, posteriormente, transcrita aqui.

Qual é a sua nacionalidade: Portuguesa
O seu Filme favorito: Um dos filmes sobre a juventude de que mais gosto é o filme francês "Connet". Um filme sobre a vida que também gosto muito é “A vida é bela”. Gosto mais de cinema europeu.
O seu Livro favorito: A Bíblia, mais especificamente o Evangélico de S. João
O seu Anime favorito: não tenho
O seu Manga favorito: não tenho
O seu Espectáculo de Música Favorito: Teatro. Gosto muito de teatro.
A sua Série favorita: Gosto muito de séries inglesas de um modo geral. Têm muito boa qualidade.


(FOTO: A autora a chegar ao nosso local de encontro... a editora BABEL)

As suas obras abarcam imensas temáticas. Existe algum tema que ainda não abordou que gostaria de focar num próximo livro?
Existem duas temáticas que estou cada vez mais empenhada em abordar: uma é a temática da doença mental, a outra é a temática da morte. Já escrevi alguma coisa sobre a doença mental, nomeadamente no livro “Voa comigo” (Presença). Quero cada vez mais chamar à atenção das pessoas sobre isto. Eu sou voluntária há muitos anos por isso esta questão da saúde mental interessa-me muito. A saúde mental é algo de muito abrangente. Há quem pense que doença mental são “os maluquinhos” ou quem pense que se trata de depressão e pouco mais. Mas a verdade é que qualquer um de nós pode sofrer com isto. Qualquer pessoa, durante a sua vida, pode ter algum problema relacionado com isto. Relativamente ao tema da morte, tenho-o abordado várias vezes. Recentemente publiquei um livro sobre isto "O meu avô foi para o céu" (Presença). No fundo, pretendo ajudar as crianças e os adolescentes a lidar com a perda. Portanto estas são as duas temáticas nas quais quero continuar a debruçar-me. Essencialmente eu escrevo para celebrar a vida e a morte e a saúde mental fazem parte da vida. Não há nenhuma família em que não se veja nalguma altura algo relacionado com isto. São, a meu ver, temáticas importantes. A própria morte também faz parte da vida e quer a morte quer a doença mental devem ser encaradas pelas pessoas com naturalidade. Acredito que quanto mais se fala nisto menos medo há pois a forma de combater o medo é falarmos e aprofundarmos as coisas para que os “fantasmas” comecem a desaparecer.

Já escreveu livros exclusivamente para adultos? 
Sim. Normalmente as pessoas dizem que conhecem todos os meus livros, mas eu tenho mais de 100 livros e alguns são, efetivamente, para adultos. É o caso de "A Cruz vazia" (Arcádia - Babel), "Judas, o Cireneu e Eu" que também é para adultos. Tenho poesia também no livro "Retratos imperfeitos". Tenho um livro de crónicas para adultos chamado "Boa educação". Finalmente tenho um livro da Babel chamado "Anti-Bonsai" onde abordo temáticas muito sérias. Não é um livro para adolescentes.

Sabemos que já foi Professora. Sim, é verdade... fui professora durante 15 anos. Alguma vez algum aluno ou outra pessoa lhe pediu para abordar uma temática específica?
(risos) Cinquenta mil vezes! Mas na verdade, eu só escrevo sobre o que está cá dentro, no meu coração. E o que tenho no coração, para lá chegar, passa por vários filtros que são pessoais. Sou eu que tenho de dar valor e que tenho de priorizar e organizar as coisas. Acho que tenho de escrever sobre aquilo que conheço melhor e há temáticas sobre as quais sei pouco, de forma pessoal claro. Há temáticas que eu não conheço e eu gosto de escrever sobre aquilo que conheço e que, de alguma forma, vivenciei  por mim ou por familiares, amigos etc. Lembro-me de uma rapariga muito nova que há uns anos se fartava de escrever à minha editora a pedir para eu escrever sobre a diabetes. Mas eu não tenho diabetes, não conheço ninguém com diabetes, não me "deparei" com a diabetes... nunca vivi com ninguém que tenha diabetes. Não tenho material para escrever sobre essa doença. Claro que existe muita informação, mas toda ela está "fora" de mim. Aí há muito material, mas a matéria tem de vir de dentro de mim. Só assim me faz sentido. 



Já utilizou como protótipo para as suas personagens pessoas reais que conheceu?

Todas as minhas personagens são inspiradas em pessoas que conheço e, por vezes, em mim própria. Algumas são verdadeiras mantas retalhos, uma mistura de várias pessoas que me são próximas, outras têm partes de mim, especialmente se eu gosto da personagem. Se não gosto da personagem (o que me acontece muitas vezes) aí já não o faço, já não lhe dou bocadinhos de mim própria. As minhas personagens e histórias nascem todas do convívio com as pessoas. Criar do zero, isso nunca faço... só Deus o pode fazer. Portanto sim, já usei.. já me baseei em familiares, alunos, filhos dos meus alunos... é muito interessante isso.

Muitos dos seus livros não têm os “finais felizes” aos quais estamos habituados. Há alguma razão específica para isso?
Sim. Isso acontece porque, em primeiro lugar, eu não acredito em "fins". A vida é uma história interminável. Não acaba aqui. Agora, há pessoas que morrem mais cedo, outras mais tarde. Para mim a morte não é uma tragédia, o que é trágico é morrer sem ter vivido. É o que acontece à protagonista de "A Lua de Joana". O desperdício das drogas... é incrível o que se perde com elas. Quem as consome não está a viver. Depois, eu costumo dizer que "gente feliz não tem história", embora o conceito de felicidade não é bem o que se espera. Os finais felizes dos filmes e de alguns livros não me agradam porque nada têm haver com a realidade, com a vida. Os maus não são sempre maus nem têm de pagar pelo que fizeram, e os bons nem sempre são bons e têm a recompensa "final". Na vida, todos somos maus e bons. Somos pessoas. Há momentos em que nos sentimos realizados, há momentos em que nos sentimos em paz e isso já é muito bom, e há momentos em que nos sentimos revoltados, desanimados, vingativos, enganados, tristes, deprimidos, etc., e esses momentos não são felizes, mas fazem parte da vida. A felicidade é uma conquista, não é uma meta, e é alcançada a vários níveis: familiar, filial, no trabalho... no lazer, na pintura, na leitura... A felicidade é uma conquista e há lutas e dissabores... há perdas por vezes! E são elas que nos fazem crescer.

Há algum livro ao qual, se fosse hoje, daria um final diferente?
Não, creio que não. Os livros só são meus enquanto os escrevo. Depois é de quem os lê (não de quem os compra) mas de quem os lê, de quem se apropria deles. Isto porque cada qual lê os livros à sua maneira, à luz de experiências que já passou, dos seus valores, das suas características, da sua personalidade. É o "todo" que nós somos que lê. Por isso o sentimos à nossa maneira. Uma vez aconteceu-me uma coisa belíssima. Fui a uma escola de crianças com problemas visuais. Nem todos eram cegos, mas uma grande maioria era e, mesmo assim, quiseram que eu autografasse o livro. Foi fantástico. Alguns dos meus livros estão em audiobooks, mas "A Lua de Joana" não está. Nunca mais me vou esquecer de uma menina que veio ter comigo. Era cega e um dia pediu à mãe para lhe ler o livro. E o que ela me disse foi que tinha gostado tanto do livro que o ía querer ler mais vezes. Mas como não tinha audiobook e não queria estar sempre a chatear a mãe para lho ler, decidiu transcrever o livro todo em Braille. E então, quando ela chegou ao pé de mim, apresentou-me o livro e disse-me: "Esta é a minha Lua de Joana". E ela tinha razão. Aquele era o livro dela. Este foi, para mim, o melhor prémio. Se eu não tivesse ganho mais nenhum prémio, este ter-me-ía bastado. Ela reparou que eu comecei a chorar, mas expliquei-lhe que por vezes também choramos quando estamos felizes. Para além do mais, senti que aquele livro estava a servir de ligação para aquela mãe e aquela filha, através da leitura e da construção do livro, pois a mãe ditava e ela escrevia. Tudo isto encheu-me as medidas. O livro é de quem o lê, não são meus. Eu escrevi-os. Enquanto os escrevo são meus, posso criá-los, recriá-los, mexê-los... depois deixam de me pertencer.


Quando acaba de escrever um livro, a quem dá a lê-lo pela primeira vez?
Sempre ao editor. Pode acontecer numa história pequenina que eu a leia em voz alta, antes, a uma pessoa especial. Por vezes dou esta prendinha a alguém. 


Em todas as nossa entrevistas pedimos à pessoa entrevistada para deixar uma pergunta para a próxima pessoa a entrevistar. No seu caso, foi a autora Maria Isabel Loureiro que lhe deixou uma pergunta
A pergunta foi:  Qual foi o livro que mais prazer lhe deu escrever e porquê?
O que ainda não escrevi. Antes de cada livro é isso que sinto, isto porque eu não tendo a revisitar os meus livros. Só o faço quando vou a uma escola. Não tenho um sentimento de posse para com eles. Se me perguntasse qual a personagem que mais gosto diria que é o Pedro do livro “Pedro e o Pápa”. Eu costumo dizer que quando for grande quero ser como esse menino. Claro que há muitas mais personagens que me deram especial prazer a ser “criadas”, mas o Pedro é a personagem que se identifica mais com o ideal de Ser Humano que eu tenho.

Sem saber qual é a próxima pessoa a ser entrevistada, por favor, deixe-nos uma pergunta para lhe fazer: Qual a personagem que acha mais interessante das que criou?


Muito obrigada à escritora Maria Teresa Mais Gonzalez pela sua simpatia e disponibilidade!

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8 comentários:

  1. " ...Os livros só são meus enquanto os escrevo. Depois é de quem os lê (não de quem os compra) mas de quem os lê, de quem se apropria deles... ". Bonito :-)

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    1. Verdade Alípio.. e a autora não podia estar mais correcta!

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  2. Já li algumas coisas desta autora e gosto muito!

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  3. Esta entrevista veio confirmar o que eu já sentia: Maria Teresa Maia Gonzalez é uma das melhores escritoras portuguesas, direi mesmo, a melhor!

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    1. Sem dúvida Anónimo! Ela é das melhores, especialmente no que toca a leitura infanto-juvenil. Lembro-me tão bem quando descobri os livros delas!! :)

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  4. Gostei imenso desta entrevista! Sorte a vossa que puderam estar com a autora! :)
    Foi ótimo ficar a conhecer um bocadinho melhor a escritora da nossa pré-adolescência.
    Obrigada! :)

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    1. Obrigada nós Cátia. De facto foi um privilégio enorme podermos estar com uma autora de quem gostamos tanto e que nos acompanhou muito na nossa adolescência. Obrigada pelo comentário :)

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