Título: O jogador
Autor: Fiódor Dostoiévski
Título original: Igrok
Páginas: 215
Edição: Visão, Ler faz bem (Cardume Editores Lda)
Sinopse
Opinião
(Roberta Frontini)
Adoro autores russos. Não, não posso nem quero generalizar. Adoro Dostoievski. A sua escrita que nos torna dependentes da sua leitura, a sua simplicidade ao lado dos seus enredos intrincados, o seu humor aguçado e inteligente... Por isso mesmo, volta e meia, meto-me a ler algo dele. E sempre que termino penso: Porque é que perco tanto tempo a ler outros autores quando tenho aqui isto?
O jogador foi, talvez, dos melhores livros que já li na minha vida e mesmo assim acho que esta não é, nem de longe, uma das suas melhores obras. O sentido de humor usado fez-me rir à gargalhada. A caracterização das personagens está soberba... as descrições não estão exageradas mas são tão claras que nos permitem "entrar" naquela sociedade e num mundo tão diferente de forma fácil. Nota-se um claro conhecimento, por parte do autor, das consequências do jogo patológico e das vivências do mesmo, que consegue empregnar nas suas personagens, enquanto, ao mesmo tempo, destaca a falta de objectivos, moral e a falta de valores da sociedade.
Uma das coisas de que mais gostei, como disse em cima, foi da caracterização de algumas personagens e da evolução de outras. A personagem principal (que narra a história), por exemplo, para além da questão do jogo patológico apresenta, ainda, uma clara personalidade dependente que extravasa a questão do jogo em si. De facto várias vezes refere à sua amada que, se ela quiser, que ele se atira de um penhasco, se mata, faz o que ela quiser. Essa dependência e quase total anulação do que ele é para com a amada, mais do que uma prova de amor revela, um pouco, esta questão da dependência. A forma como, psicologicamente, o narrador nos vai descrevendo as probabilidades para determinado resultado é fascinante, e as crenças em torno delas são muito interessantes. Para os "jogadores" as leis da probabilidade têm regras que só eles conhecem e que, apesar de ineficazes, por vezes os fazem sentir invencíveis.
A avó é outra das personagens que tem um destaque importante e uma evolução interessante. Para além de ser a personagem mais cómica e irónica, ela começa com uma grande preocupação para com as pessoas viciadas no jogo, mas depois ela própria entra no esquema e, através dela, compreendemos melhor todo o processo de adição. Porque o narrador já era dependente... a avó vai-se tornando, e ver essa evolução [regressão?] é fascinante. Aliás, em todo o livro isto é muito patente e facilmente se compreende que apenas alguém com um profundo conhecimento da dependência ao jogo (como o autor o foi) poderia escrever uma obra destas.
Sim, Dostoievski foi um jogador. A vários níveis. A criação desta obra foi, ela mesma, uma aposta. O autor estava a escrever Crime e Castigo e, nos "entretantos", fez um pacto com o editor: até uma determinada data, se ele não entregasse um livro com X páginas o editor podia, durante 9 anos, publicar tudo o que ele escrevesse sem lhe pagar nada. Esta obra surge então desta urgência em terminar um prazo e foi escrita com a ajuda de uma dactilografa (para escrever mais rápido) que depois acabaria por se tornar sua mulher.
Não é a obra prima do autor, mas é uma obra prima para mim. Isto porque, o que tendemos a fazer é comprar com outras obras. Se compararmos este livro com os seus outros livros, este de certo que não se destacará. Mas basta pararmos para o comparar com outras obras de outros autores para percebermos que estamos perante um livro absolutamente delicioso.


