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quarta-feira, 18 de março de 2020

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135ª Entrevista do FLAMES + O teu FLAMES num ano: João Rogaciano


Em 2016/2017 criámos no FLAMES a rúbrica: O teu FLAMES num ano 2016

Este ano vamos recomeçar uma nova O teu FLAMES num ano 2019

Espero que gostem!


JOÃO ROGACIANO

Bio do autor
João Rogaciano, nascido em 1966, é engenheiro electrotécnico. Adora ler e tem um gosto especial pela escrita. Participa, regularmente, em certames literários. Publicados em Portugal e no Brasil, os seus contos podem ser encontrados em revistas, fanzines e diversas antologias.

Como entrou para o mundo da escrita?
Entrei, timidamente, para o mundo da escrita em 2005, através da participação em concursos realizados pelas câmaras municipais e juntas de freguesia do nosso país; e também através de participação em colectâneas de contos no Brasil e em Portugal.

Em 2010, a editora “Saída de Emergência” lança a versão portuguesa do “Almanaque do Dr Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas”, a qual continha um anexo designado “Compêndio Médico de Doenças Notáveis e Invulgares do Dr Anófeles Calamar Trindade”. Os contos desse compêndio foram objecto de concurso e de uma selecção por parte do editor, o João Seixas, tendo o meu conto “Síndroma de Super-Homem” sido escolhido para nele constar.

Deu-se o boom! A partir daí, para além dos concursos das autarquias, participei em inúmeras antologias no Brasil e numa antologia de autores portugueses, produzida por uma editora brasileira.

Em Portugal, a minha mais recente contribuição foi o conto “Uma conspiração perigosa” publicado na antologia “Winepunk – ano 1 - a guerra das pipas”. É o meu segundo trabalho publicado pela Editorial Divergência.

Quem foram os escritores que o influenciaram?
Entre outros, e sem ordem de importância: Conan Doyle; Agatha Christie; Jack London; Louis Stevenson; Emilio Salgari; Ray Bradbury; Eça de Queirós; Enid Blyton; AA Fair; Edgar Rice Burroughs; Roald Dahl; Edgar Allen Poe; Lewis Carroll.

Como surgiu a ideia para escrever o seu livro?
Até ao presente, os meus contos foram publicados em colectâneas e em fanzines. Não possuo nenhum livro a solo, pelo que vou responder em relação à escrita dos contos.

Começo por ver se o tema da colectânea me desperta algum “tlintar” mental. Depois, vou imaginando vários cenários / histórias à volta do tema proposto e deixo as ideias fluir. Estas vão amadurecendo, ou sendo eliminadas, até ficarem reduzidas a uma ou duas, dando origem a um conto, que será trabalhado a partir de então.

Quais foram as maiores dificuldades em transmitir as suas ideias para o papel? E o que foi mais fácil?
Depois de escrever um conto, deixo o mesmo a amadurecer “esquecido”, durante uma ou duas semanas. Depois, pego nele, e começo a rever todos os parágrafos. E, então, descubro inúmeros defeitos, que, no fulgor inicial, pareciam perfeitos. Assim, a maior dificuldade é saber qual o momento certo para parar de efectuar alterações, e enviar o texto para análise do editor.

Não há nenhuma situação que identifique como “a mais fácil”.

Qual/quais conselhos daria a um autor iniciante?
Ler, ler, ler, ler…

Escreva regularmente, a um ritmo em que se sinta bem consigo próprio.

Depois de um período de escrita intensivo, esqueça o manuscrito por uma ou duas semanas. E, depois, volte a lê-lo, e a proceder às inúmeras alterações que certamente terá de fazer.

Peça a um amigo, ou leitor beta, que seja verdadeiramente imparcial, para ler o seu texto e dar uma opinião sincera sobre o mesmo. Nada de pedir opinião aos pais (para eles, tudo o que escrevemos é uma maravilha, sempre!).

Tenha em atenção que, por muito bem que escreva, nem todos são obrigados a gostar.

Se o seu conto for publicado em algum fanzine, livro, blog, deve festejar e ficar radiante. Mas, não demore muito a vestir o exosqueleto mais resistente que possua, e prepare-se para ser apedrejado, esquartejado, vituperado com desagradáveis epítetos… por ter tido a ousadia de publicar! Mesmo que o texto seja uma maravilha… As vozes que o criticarão, para o deitar abaixo, farão muito ruido! Mas, como na aldeia do Astérix, há um grupo de irredutíveis gauleses que se agradarão da publicação e celebrarão com parcimónia a sua publicação.

Não ligue absolutamente nenhuma às críticas destrutivas e/ou maldosas que publiquem sobre o seu conto. Despreze-as, ignore-as, e coloque-as no seu devido lugar: o lixo!

Atenda e entenda as críticas construtivas que lhe serão feitas. Utilize-as para melhorar, cada vez mais. Considere-as como um guia construtivo na sua carreira de escritor.

Fuja a sete pés daqueles que se arrogam como especialistas sobre determinado assunto ou sobre determinada área temática do fandom, e que usam essa pseudo-autoridade para deitar abaixo o trabalho dos outros.

Ligue-se aqueles que, tendo um longo e profícuo trabalho como autores e/ou em projectos em prol da ficção e do fandom, são as verdadeiras autoridades no assunto, e não se arrogam de especialistas, nem o deitam abaixo como autor iniciante! Luís Filipe Silva; Artur Coelho; Rogério Ribeiro; João Seixas; João Barreiros; João Ventura; Cristina Alves; Pedro Cipriano, são alguns dos elementos que prestigiam o fandom e que fazem valer a pena continuar a escrever e publicar.

Assista e frequente eventos relacionados com a sua área de escrita. O “Fórum Fantástico” é um excelente exemplo.

Não embarque na conversa de pseudo-editoras (vanitys), que só publicam o seu livro, ou o seu conto, se pagar para esse efeito.

O teu FLAMES num ano 2019

Filmes: “Avengers, end game”
Livros: “Winepunk – A guerra das Pipas”
Animes: ---
Mangas: ---
Eventos: Fórum Fantástico 2019
Séries: “Bancroft”; “Jack Taylor”
 




quarta-feira, 1 de agosto de 2018

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129ª Entrevista do FLAMES: Moonspell (respostas por Fernando Ribeiro)


Moonspell 
(respostas por Fernando Ribeiro) 


Que artistas mais vos inspiram? 
Acho que são muitos para nomear todos mas eu consigo dar só uma mão cheia deles que fizeram mesmo a diferença para nós: BATHORY, CELTIC FROST, TYPE O NEGATIVE, ROOT, FIELDS OF THE NEPHILIM 

Há algum local onde gostariam muito de ainda vir a tocar? 
Temos algumas lacunas especialmente muita da Ásia e a Austrália mas, na verdade, acho que já tocámos em mais sítios do que alguma vez esperaríamos. Pessoalmente, gostaria de tocar no Irão com a Orquestra Nacional de Teerão, não sei porquê, tem-me passado isso pela cabeça. 

Lembram-se de alguma situação caricata que tenha ocorrido num concerto e que gostariam de partilhar? 
Tocar é estar sempre num arame, as coisas não são assim tão previsíveis ou nem tudo está sobre controlo. Tivemos cenas altamente caricatas, claro, quedas, desmaios, pregos e das melhores que me lembro ultimamente foi ver o Pedro Paixão fora dos teclados a ver a Alma Mater da plateia em S. Paulo e depois regressar ao palco mesmo a tempo da entrada de teclas. Foi esquisito. 

Já está em pré-venda uma edição muito especial e limitada do vosso concerto do Campo Pequeno em Lisboa. Depois de tantos anos enquanto banda, como vivem o lançamento de um novo trabalho? 
É um documento importante e todos estes lançamentos tem esse condão de resumir um pouco a nossa história, desta vez ao vivo, e fazer-nos pensar e ver como estamos ao vivo, o que podemos mudar, melhorar, pôr, tirar. Depois existem as recordações do dia de gravação que são imensas. Mas, na verdade, o momento vai ser receber a edição física já que muita gente trabalhou para aquele “objecto” ser fantástico, mas eu fico muito mais excitado com o processo de um novo disco para ser honesto. 

Depois de um Verão preenchido em Portugal, vão estar durante cerca de 2 meses em digressão internacional. Encontram diferenças entre atuar aqui e lá fora? 
Acho que a recepção aos Moonspell em Portugal está cada vez melhor e felizmente conseguimos sair, com bons resultados, do eixo Lisboa-Porto. Temos tocado noutras cidades e vilas e tenho gostado muito, e no processo muita gente tem também ficado mais interessada no Metal e na nossa banda. As tours lá fora são diferentes, muito diferentes, cada noite é um sítio. A próxima é nos EUA e é sempre uma incógnita, mas é para fazer com dedicação e divertirmo-nos um pouco também, já que não há outra hipótese na América senão rir e tentar a nossas sorte pela décima quinta vez ;) 

Ao longo da vossa carreira tiveram a oportunidade de pisar palcos com outras grandes bandas, como os Kiss. Existe alguma banda ou artista com a qual gostariam muito de poder vir a colaborar? 
Tantos. Uns serão mais prováveis, outros nem tanto, alguns já contámos com a sua colaboração. Pensámos no Peter Murphy para o Extinct mas o manager nunca nos respondeu, por exemplo. Assim de repente, talvez o Messiah Marcolin num tema. 

No livro do Ricardo S. Amorim, José Luís Peixoto conta como os Moonspell tiveram um papel importante na escrita dos seus livros. De que forma a literatura tem impacto no vosso processo de criação musical? 
É central à nossa criação todo esse aspecto literário. O José Luis foi o melhor exemplo, mas muita da nossa criação literária, que molda a nossa música, bebe muito de livros, poesia, ficção, não ficção. Continuo a ler muito e a ter sempre ideias por causa disso. 

Os Moonspell são uma banda incontornável no panorama nacional independentemente do género que se gostem. Sentem o peso dessa responsabilidade? 
Não. Pelo contrário, achamos que não temos o respeito da cena tanto quanto se calhar merecíamos. Não por questões musicais mas por outras, assim parece. O que é facto é que quase ninguém aprendeu nada com a nossa luta e conquistas. Por isso, não somos responsáveis por esta cena, apenas calhou estarmos nela mas nem ela se identifica connosco nem nós com ela, aliás como está no livro. 

O livro fez-vos reflectir sobre o passado e, tal como faz parte da banda, planear de alguma forma acções futuras? 
Sim. Penso que uma das maiores conquistas do Ricardo for ter a banda a ler e a sentir este livro, talvez como ninguém. Permite-nos ver a nossa própria história em zoom out, ver a grande fotografia e isso será sempre muito importante e estamos gratos por isso. É um manual para estar numa banda. 

Muito obrigada ao Fernando Ribeiro por esta extraordinária oportunidade. 



sábado, 28 de julho de 2018

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128ª Entrevista do FLAMES: Ricardo S. Amorim (autor português)


Ricardo S. Amorim
Foto de Joana Marçal Carriço, SFTD Radio

Os Moonspell dispensam qualquer tipo de apresentações sendo uma banda incontornável no panorama nacional. No entanto, existem tantas histórias interessantes que rodeiam a banda, e tanta coisa por descobrir… 
Para nos desvendar algumas delas, Ricardo S. Amorim escreveu “Lobos que foram homens” (opinião que podem espreitar aqui). 

A escrita deste livro foi assim a desculpa perfeita para falar quer com o autor quer com a banda. Nesta primeira parte mostramo-vos a entrevista com o autor. Ora espreitem.

No livro o Ricardo fala sobre o processo de criação do mesmo, ou seja, sobre como surgiu a ideia etc. Pode partilhar isso com os nossos seguidores? 
A ideia surgiu de uma forma bastante espontânea, conforme relato no próprio livro. Surgiu durante uma viagem de carrinha do Porto para Lisboa, em que vim de boleia com a banda, que já conheço pessoalmente há alguns anos e com a qual já tinha tido algumas interacções profissionais. Adicionalmente, partilho o nome e apelido com o guitarrista, e era algo frequente receber acidentalmente e-mails que lhe eram destinados, com informação confidencial. A reserva com que sempre os tratei, avisando os remetentes e eliminando os mesmos, levou a que também se criasse uma relação de confiança. 

Apresentado o convite pelo Fernando durante essa viagem, naturalmente que sustentado no apoio do resto da banda, aceitei de imediato e num muito curto espaço de tempo estávamos reunidos para discutir o projecto. Apresentámos a ideia à editora, a Saída de Emergência, que já antes tinha manifestado interesse (foram, até, os primeiros a ter esta ideia), que acolheu o projecto com muito entusiasmo, e comecei logo o processo de pesquisa e escrita do livro, que durou cerca de um ano. 

O Ricardo teve o cuidado de entrevistar membros mais antigos da banda. Estava à espera da abertura por parte de todos para contarem algumas das histórias? 
Confesso que não sabia bem o que esperar. Calculei que aceitassem conversar comigo, mas não sabia com que atitude ou abertura o fariam. Era essencial ao livro que a história deles, a sua visão sobre os acontecimentos, fosse contada. Caso contrário, o leitor teria apenas uma visão sobre os acontecimentos e não ficaria a conhecer os dois lados da história. Felizmente, todos aceitaram participar e com uma abertura que me surpreendeu muito positivamente. Houve problemas entre eles (por isso saíram da banda), e até acções judiciais, mas o tempo permitiu-lhes ter uma leitura mais distanciada e objectiva sobre o que se passou. Nunca houve apontar de dedos ou lavagem de roupa suja, houve, isso sim, uma reflexão de homens de 40 anos sobre acontecimentos de há 20 anos atrás, de uma banda que cresceu muito rapidamente e que se deparou com circunstâncias para as quais se calhar não estava preparada. Foi nesta banda que os miúdos se tornaram homens, e na estrada que se fizeram lobos. 

Tem imensa experiência em entrevistar músicos, havia um outro livro deste género que gostaria de escrever com outra banda? 
Tenho muitos projectos que gostaria de concretizar, uns que estarão ao meu alcance, outros obviamente que não. Gostaria de responder que agora ia para a estrada com o Nick Cave ou com os Nine Inch Nails para contar a história de vida do Trent Reznor, que é fascinante, mas isso não vai acontecer. Tenho planos para continuar a escrever, e acho que há histórias interessantes por contar no universo musical português, mas também não me quero cingir a isso. Logo veremos o que o futuro próximo reserva. 

E lembra-se de alguma história engraçada que tenha ocorrido durante uma entrevista a um músico/banda? 
Tenho algumas histórias rocambolescas, nem todas positivas, mas prefiro destacar as que mais me dizem, e as entrevistas ao Jaz Coleman, dos Killing Joke, são sempre especiais. Em primeiro lugar, porque sou um grande fã e é uma figura particularmente carismática, daquelas que já não existem. Senti logo uma empatia muito grande na primeira vez que o entrevistei, em 2006. Estava com algum receio, pois ele já teve fama de ser hostil para a imprensa, mas a conversa correu bastante bem. Mas a melhor parte foi quando acabou a entrevista e desliguei o gravador e ficámos a conversar. Contou-me que, em criança, vinha com os pais passar férias à Nazaré e que tinha muitas saudades de Portugal. Apesar da última vez que os Killing Joke cá tocaram tenha sido em 1991, na primeira parte dos Pixies no Coliseu (entretanto, já cancelaram duas vindas), ele disse-me ter uma relação especial com o nosso país. A sua agente ficou com o meu contacto e estive para ir ter com eles a Barcelona na semana seguinte, o que depois não pude concretizar por motivos profissionais. Mais tarde, soube da morte do Paul Raven (que foi baixista de Killing Joke) precisamente durante uma viagem que fiz a Barcelona. Quando contei isto ao Jaz Coleman numa entrevista seguinte, emocionou-se e dissertou sobre o significado cosmológico do que lhe estava a dizer. Para quem conhece e admira o Jaz Coleman, essa não é uma conversa que se esqueça. 

Os Moonspell foram sofrendo várias metamorfoses ao longo dos anos. Qual foi a maior dificuldade que encontrou na escrita deste livro? 
A maior dificuldade foi, sem dúvida, o tempo. Em primeiro lugar o meu, mas também não foi fácil conseguir conjugar as disponibilidades dos diferentes intervenientes com um método de pesquisa que tive de fazer. Para melhor me organizar, tive de seguir uma linha cronológica e por isso tinha de falar com as pessoas que estiveram presentes naqueles períodos. Cedo percebi que a pesquisa tem de ser balizada com grande disciplina, caso contrário não acaba. Cavamos um poço tão fundo que às tantas não sabemos como sair dele. Embora o livro tenha episódios, foi importante distinguir aquilo que é acessório do que é a história da banda, e ao mesmo tempo permitir que o lado humano venha ao de cima. Enquanto leitor, não gosto que um livro do género seja apenas um relato de factos, mas que os intervenientes sejam pessoas reais, que consigamos perceber o processo criativo nos diferentes momentos, o espírito e as circunstâncias que levaram à tomada de decisões, sejam elas certas ou erradas, pois a falha faz parte do processo. 

Cada capítulo tem, para além de um título, uma frase emblemática. Como foi a selecção das frases para cada secção? 
Quando o Pedro Paixão me falou do projecto Orfeu Rebelde, e do prazer que teve em trabalhar sobre os poemas do Miguel Torga, reforçou a frase do poeta: “o destino destina, mas o resto é comigo”, e de como isso foi impactante para ele enquanto criador. De tal forma me transmitiu esse entusiasmo que logo decidi que tinha de usar aquela frase do Torga, e não poderia ficar simplesmente “perdida” pelas páginas, de modo a que pudesse passar despercebida. Ia começar o livro com essa frase, mas depois foram surgindo outras ideias e decidi usar uma citação em cada capítulo. Os Moonspell sempre foram muito vocais sobre as suas influências, musicais ou literárias, e achei que isso faria sentido no contexto da banda que são. A escolha das frases foi bastante óbvia para mim em alguns dos capítulos, para outros nem tanto mas surgiram de uma forma muito espontânea também. Por exemplo, a ouvir Monster Magnet no carro, fiquei com a frase na cabeça como muito adequada ao capítulo que estava a escrever naquele momento. Ou seja, há frases que dizem respeito directamente à história e aos Moonspell, mas outras são referências minhas, de músicas que ouvia ou livros que lia, que definiram um mapa mental que fui criando para estruturar o livro e que podem parecer muito pouco óbvias às pessoas, quiçá à própria banda. 

O livro tem uma componente gráfica muito forte, desde as fotos, à capa, a alguns pormenores do interior. O Ricardo teve um papel activo nessa parte também? 
Sim, tive esse papel activo na escolha das fotos e da sua localização no texto. Tive uma grande ajuda na recolha e tratamento das fotos por parte do Paulo Mendes, que é também o autor de muitas das fotos, e depois o Luís Morcela, designer da Saída de Emergência, teve todo o mérito no trabalho gráfico feito, que acho que valoriza bastante o livro. 

O Ricardo teve a oportunidade de estar com a banda nos “bastidores” do Alcatraz Hard Rock & Metal Festival, mas foi acompanhando a banda em vários concertos, alguns até bem longe. Como se sentiu ao experienciar tudo na primeira pessoa? 
De início senti-me um pouco como um intruso, mas creio que isso terminou logo na primeira viagem que fiz com eles. Fizeram-me sempre sentir bem-vindo e rapidamente se desenvolveu uma relação de amizade entre nós. Não se tratou apenas de uma colaboração tendo em vista o livro, mas de laços criados e que se irão manter. Isso foi essencial para o livro e levou a que também me tenha colocado nele. Ou seja, o meu instinto é nunca escrever na primeira pessoa mas fiz isso várias vezes ao longo do livro. Pela confiança que senti deles, todo o processo foi como um enorme diálogo e foi através da escrita que dei a minha resposta. Se não tivesse tido essa vivência com eles, de ir para a estrada também, o livro não teria a vida que acredito que tem. Foi sentado, a conversar calmamente com cada um deles, que conheci a história da banda e o seu passado. Mas foi junto deles que conheci verdadeiramente os lobos que continuam a ser homens, apesar do título. 

Tal como refere no livro, os Moonspell são uma banda de reconhecimento nacional com uma história enorme e inúmero prestígio a nível mundial. Apesar de as coisas se terem alterado nos últimos anos em Portugal, parece ainda haver algum preconceito para com o metal em geral, e é dado maior destaque a músicos que por vezes têm uma projecção mais mediática, mas também mais fugaz. O que acha que se pode fazer no sentido de inverter essa tendência?
Essa é a pergunta do milhão de dólares. Gostaria de ter uma resposta objectiva para a mesma, mas não é simples indicar uma ou várias medidas para que essa tendência se inverta. Todas as semanas se declara a morte do rock, que nada diz às novas gerações e que é noutros géneros que encontram as suas referências. Talvez seja ingenuidade minha pensar que uma canção como «Smells Like Teen Spirit» ecoa da mesma forma num miúdo de hoje como na minha geração, mas vou continuar a acreditar que sim. Acho que há espaço para tudo, do metal, ao pop, passando pelo hip hop e a todos os outros géneros. Contudo, a igualdade de exposição não se verifica, e há oportunidades que estão a ser vedadas baseadas no género. Num contexto mainstream, temos um festival como o NOS Alive completamente esgotado e com um cartaz, ainda que variado, baseado no rock, com bandas como Pearl Jam, The National, Queens Of The Stone Age, Nine Inch Nails ou Artic Monkeys, por isso as notícias sobre a sua morte são largamente exageradas. Poderá argumentar-se que são bandas com décadas de carreira, e que não tem surgido renovação e que se está a viver da nostalgia, mas aí é porque acredito que haja portas fechadas logo à partida. 

Voltando ao metal, existe o chavão de que se trata de um nicho de mercado. Mas quando vemos festivais, Europa fora, com 70 ou 80 mil pessoas, fico com muitas reservas quanto a essa resposta. Em Portugal, tivemos recentemente os Iron Maiden a esgotar a Altice Arena, o Ozzy Osborne perto disso, e ainda os Kiss e os Scorpions com muito boas plateias. Milhares de pessoas foram a esses concertos, que depois não vão a outros de menor dimensão porque simplesmente não conhecem ou não sabem. Se foram 18 mil pessoas a Maiden, não há 5% ou 10% dessas pessoas que estariam num concerto de uma boa banda portuguesa de metal, ou de uma jovem promessa do estrangeiro? Acredito que com as ferramentas certas, e sem que as portas se tranquem logo à partida, isso possa ser possível. 

Muito mais teria a dizer, e nem sei se respondi à pergunta, mas aqui fica uma visão do tema. 

Obrigada ao Ricardo pela disponibilidade! 

Fiquem atentos.. em breve teremos a entrevista aos Moonspell respondida por Fernando Ribeiro.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

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127ª Entrevista do FLAMES: Daniel Cardoso (produtor e músico português)


Daniel Cardoso


Daniel Cardoso é um dos membros de uma das minhas bandas favoritas da vida: os Anathema. Para além do mais é baterista e, como alguns de vocês sabem, também eu toco bateria. Por isso quando aceitou responder a esta entrevista quase julguei que estava a sonhar. 



Mas Daniel Cardoso é muito mais do que isso: é um produtor e músico autodidacta, o que aumenta apenas o meu respeito por ele. Fiquem com a entrevista:

A todos os artistas o FLAMES pergunta... 


Quais são os artistas que mais te inspiram?

É-me extremamente difícil responder a isso, para ser sincero nunca me senti muito inspirado por outros artistas. Sou acima de tudo uma pessoa inspirada pela vida. Sinto admiração por alguns artistas pela postura que têm na música e na vida, por exemplo artistas como o Dave Grohl, mas não me considero propriamente inspirado por eles.

Há algum local onde gostarias muito de poder tocar?
Nos últimos anos tenho tido a sorte de tocar em locais e países onde sempre sonhei ir, recorrentemente em alguns dos casos. Talvez pudesse dizer o Irão (se numa realidade paralela fosse seguro e realista uma banda de rock ir lá tocar) pelo simples facto de que é provavelmente o país onde a banda em que toco tem mais fãs per capita. É raro darmos um concerto, seja em que país for, onde não haja várias pessoas do Irão e até muitas vezes já perguntamos por brincadeira “quantos de vocês são do Irão?”. Infelizmente a juventude e a liberdade de expressão no Irão ainda são conceitos constantemente cilindrados pelas tradições dos velhos regimes o que faz com que bandas que empunhem a bandeira da liberdade e da igualdade não sejam propriamente bem vistas lá. Mas talvez um dia.

Lembras-te de alguma situação caricata que tenha ocorrido num concerto? 
Lembro-me de uma vez no fim de uma actuação mandar uma baqueta para o público mas como tinha as luzes apontadas à cara não consegui ver para onde estava a apontar. No preciso momento em que a baqueta me saiu das mãos apagaram-se as luzes de frente e consegui ver, assim como que em camera lenta, que acertou em cheio da cabeça de uma rapariga que estava de costas. Felizmente o cabelo deve ter amortecido o impacto e acho que ela não se magoou nem levou a mal, provavelmente até levou foi a baqueta para casa. Tocar em palco com o Dr. Stephen Hawking e ter o Hans Zimmer, o Brian May e o Brian Eno na plateia também foi bastante caricato. 

Que mensagem gostarias de ver ser erguida num cartaz durante um concerto teu?
Qualquer coisa cómica e criativa que me faça rir. 

Ao Daniel Cardoso o FLAMES pergunta... 

És um artista muito versátil: escreves, tocas vários instrumentos, és actor, és produtor… Mas se alguém te perguntasse qual é a tua profissão e só pudesses escolher uma palavra para te definir, qual escolherias? 
Só não sou actor, isso é uma confusão da internet por haver um actor com o mesmo nome que eu. Na verdade - e curiosamente - é uma das minhas paixões, ser actor de cinema, mas não seria em Portugal, teria que ser em Hollywood. Num universo paralelo assim o seria, mas para já só faço o resto, que basicamente significa que tenho muito mais trabalho e ganho muito menos dinheiro. Numa palavra só diria músico, já que no fundo tudo aquilo que é neste momento a minha profissão gira apenas e só à volta disso. 

Uma das coisas que fazes é remote pre-production. Como é que isto se processa? 
É apenas uma solução para acompanhar bandas de outros países sem rebentar com os seus orçamentos. Por exemplo estive há uns anos quase 3 semanas no Chile a produzir uma banda e só em hotel, viagens e refeições para mim a banda gastou um balúrdio, ao que se somou a fee do trabalho em si e outros gastos que a banda teve ao alugar o estúdio, etc. Fazendo a produção ou pré-produção remotamente consigo fazer na mesma algum acompanhamento durante a produção mas sem implicar despesas de quatro ou cinco dígitos às bandas. Também é uma forma de poder trabalhar no conforto do lar. Abençoada internet. 

E o facto de seres músico achas que ajuda no teu trabalho enquanto produtor, ou achas que pode ter uma influência mais negativa por não te permitir ser tão objectivo?
O facto de ser músico só pode afectar positivamente o lado de produtor. Já o contrário tem invariavelmente o efeito oposto, ou seja, sendo produtor sinto uma influência negativa no meu lado de músico-compositor na medida em que me molda demasiado, me faz pensar demasiado no que devo ou não fazer, no que está ou não “correcto” e acima de tudo amputou-me a experiência de ouvinte. Sinto que perdi muito aquela pureza de ouvir música, é-me muito difícil ouvir música sem reparar em todos os pormenores técnicos. Chego ao cúmulo de gosto de, permite-me a expressão, música de merda por estar bastante bem produzida e não olho a bons olhos (ou bons ouvidos) para músicas bem compostas que tenham uma produção amadora. Para mim é o único lado negativo da minha profissão.

Qual dos instrumentos que tocas mais te entusiasma?
Bateria, sem qualquer tipo de dúvida. 

Já trabalhaste em várias partes do mundo, desde Portugal, Reino Unido, Estados Unidos… encontraste algumas diferenças culturais na forma que os artistas adotam para fazer música?
Há uns anos atrás notavam-se algumas diferenças de posturas e mentalidades no seio do meio musical, hoje em dia nem por isso, até porque está tudo muito globalizado. Não que isso seja mau.

Há algum artista com quem gostarias muito de poder vir a trabalhar?
Já trabalhei com uns quantos daqueles que em idos anos me levavam a sonhar “um dia ainda hei-de trabalhar com ele/ela”. Neste momento não sei. Num plano realista estive recentemente em tour com Alcest e não me importava nada de trabalhar com eles como produtor. Num plano mais irrealista, talvez uma Bjork. 

Uma das bandas com quem trabalhas são os Anathema, que estão agora em tour para promover o novo álbum “The Optimist”. Pessoalmente consideras-te um optimista?
Sim, bastante. Tento ter uma visão positiva das coisas, acima de tudo em termos de ambição e pro-actividade. Não aceito um “isso é muito difícil” como resposta e não gosto de “nãos”. 

Os Anathema são uma banda em constante evolução. Ao longo dos anos passaram por várias fases, musicalmente falando… Porque achas que isso aconteceu? 
Acima de tudo pela genuinidade das pessoas que decidiram o rumo da banda. Fizeram sempre aquilo que sentiram e acima de tudo que gostavam de ouvir. Nunca houve uma preocupação do tipo “temos que mudar para tornar as coisas interessantes” ou para atingir este ou aquele mercado. Do que conheço da banda e do percurso da banda sei que foram sempre honestos com aquilo que sentiram, e sentiram sempre vontade de explorar coisas novas e que acima de tudo fossem ao encontro do tipo de música que gostam de ouvir. 

O facto de trabalhares com tantos artistas diferentes, achas que influência enquanto músico?
Sim, cresce-se sempre um bocadinho a vários níveis, talvez até mais a nível humano. Há sempre algo a “roubar” de alguém e que se torna em crescimento, seja algo positivo, negativo, pessoal, musical, emocional. 

Para o futuro, o que podemos esperar do teu trabalho?
Podem esperar isso mesmo: trabalho.

Obrigada ao Daniel pela oportunidade! 

domingo, 12 de março de 2017

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124º Entrevista do FLAMES: Kika



KIKA

Kika está de volta com novo álbum: “Love Letters”. O álbum contou com a produção executiva de RedOne, célebre produtor que já trabalhou com algumas das maiores estrelas pop da atualidade – Lady Gaga, Nicki Minaj, Jennifer Lopez, One Direction, entre outros – e com quem Kika já tinha colaborado no disco anterior, “Alive”. Este foi o pretexto para uma conversa connosco!

A todos os artistas o FLAMES pergunta...

Quais são os artistas que mais te inspiram?
Gosto particularmente da Adele, sempre gostei desde o álbum de estreia o 19 para o 21, para o 25… Ela faz uma coisa que eu gostava de conseguir fazer que é, não precisa de fazer uma música com uma batida muito forte, uma música muito energética e mesmo assim as pessoas respondam da mesma maneira. Acho que ela faz isso através das letras. Quem me dera escrever letras assim. Depois gosto da Joss Stone que é uma coisa mais soul, mais blues, e que acho que é um bocadinho diferente do pop geral e, portanto, reconheço-lhe muito mérito. Mas eu ouço muita coisa, desde blues a jazz…

Há algum local onde gostarias muito de poder actuar, ou onde gostarias muito de poder voltar a levar este teu novo trabalho?
Não sei… Na realidade todos os concertos que eu fiz (ou pelo menos a grande maioria dos que fiz com o meu primeiro disco) foram em espaços abertos e muito grandes. Cheguei a fazer o Rock in Rio, o Marés Vivas e assim.. .e gostei imenso! Mas por acaso gostava, com este álbum, de tentar uma vertente um bocadinho mais íntima, com as salas mais pequenas, ou tocar num sítio onde as pessoas pudessem estar sentadas. E tenho sobretudo, o sonho de um dia tocar, mas isto não sei se algum dia seria possível, num concerto no Rio de Janeiro, no cimo de um monte num pôr do sol! Isso era um sonho mas no Brasil ninguém me liga nenhuma, (risos) mas no dia em que ele ligar eu vou lá (risos).

Acho que ia ser muito bonito... Lembras-te de alguma situação caricata que tenha ocorrido numa das tuas actuações?
Uma vez numa FNAC aconteceu uma cena mesmo estranha numa das primeiras vezes em que lá toquei. Estava na FNAC do Porto e antes de começar a cantar estava a andar pelos corredores da FNAC. Isto não tem piada nenhuma, mas na altura achei curioso. Havia um miúdo que me andava a seguir pelas alas. A princípio achei que estava a ser um bocado paranóica, que ele não me estava a seguir a mim, que devia só estar a escolher uns livros e assim… então saí da FNAC e ele também saiu! Desci as escadas e ele também! Fui até à garagem e ele também. Comecei a entrar em pânico. Eu estava ao telefone, e ia dizendo o que se passava, mas ninguém acreditava em mim. Então depois tive que ir ter com o segurança do parque e fingir que estava a ter uma conversa com ele e o miúdo desapareceu. Tenho também um novo manager que é o Quintela, que está sempre a fazer piadas, mas as pessoas não acham piada nenhuma! Do género, as pessoas pedem-me um autógrafo e ele diz “Tome de 8 em 8 horas”. As pessoas ficam revoltadas porque ele não tem mesmo piada nenhuma. Mas não me estou a recordar assim de uma situação muito caricata...

Eu acho que isso já é bastante caricato... Que mensagem gostarias de ver ser erguida num cartaz durante um concerto teu?
Não sei, mas por acaso leio sempre esses cartazes porque são grandes e saltam à vista… Mas eu tenho sempre um bocadinho de receio que este álbum não seja tão bem-sucedido por não ser tão… tão “rádio” ou tão pop como os anteriores…! Por isso desde que eu não veja coisas do tipo “Sai do palco” já fico feliz (risos). Algo tipo “Este novo CD é um máximo” eu gostava de ver, mas não tenho desejo de ver nada em particular.


À KIKA o FLAMES pergunta…

Ficaste conhecida ainda muito jovem. Sentiste na altura que os restantes artistas portugueses já te respeitavam como artista mesmo sendo tão nova? Ou sentiste que te tiveste de esforçar mais que os outros?
Eu não senti muito isso! Quer dizer eu também não tinha muito contacto com muitos artistas, e por isso não tinha uma opinião muito formada sobre isso. Mas tinha sempre receio que por ser nova eles tivessem um bocadinho de pé atrás. Não sei... Mas não me interessava assim tanto, porque os músicos com quem eu sempre trabalhei e que eu respeitava muito, gostavam de mim. Diziam que mesmo que alguém pudesse dizer alguma coisa, do género, “eh pá, a miúda é muito nova, não canta nada”, eles diziam “não é verdade, canta mesmo”. Ou seja, a opinião deles para mim era a mais bem formada que havia, e era boa sobre mim! E não era só por estarem a trabalhar para mim não é? Senão mais valia ficarem calados se não tivessem nada de bom para dizer. E isso sempre me deu um bocado de conforto. Conheci também o Pedro Abrunhosa e ele só teve coisas espectaculares a dizer sobre mim, portanto fiquei muito feliz. Mas não faço ideia se os restantes gostam ou não. (risos)

Qual é a tua maior fonte de inspiração?
Não faço ideia. Eu nunca me inspirei em ninguém. Sempre ouvi muita coisa e sempre cantei de uma maneira específica. Qualquer música que eu cantasse podia ser muito diferente uma da outra, mas acabam sempre por soar a mim de certa forma. Por exemplo, na RFM fiz um cover de uma música chamada “The Pretender” dos Foo Fighters e a música é assim meio metal, tipo rock e na altura disse ao meu pai “vou fazer esta”, e ele disse “és maluca, não faças isso, essa música é horrível”. Mas eu lá cantei a música e ele adorou porque eu faço umas versões muito próprias. Eu acho que se me inspirasse mesmo em alguém era na Adele pelo prazer que eu tenho em ouvi-la, e só esperava que os outros tivessem também. E acho que ela não tenta ser demasiado exuberante e mesmo assim as pessoas gostam dela, não é? Por exemplo, eu adoro a Beyoncé, mas não tem nenhum desejo de dançar com 10 dançarinas e uma produção, uns holofotes todos… É por isso que admiro a Adele por conseguir, mesmo não tendo aquelas coisas todas, captar o mesmo tipo de atenção.

Tirando os artistas, tu costumas basear-te mais em coisas que te acontecem ou…
Bem, a maior parte dos meus temas não fui eu que os escrevi, escreveu um compositor que trabalhou comigo no meu primeiro álbum. Ele fez um trabalho extraordinário nesse álbum, e como compositor também cresceu muito. Eu entrei praí em 3 ou 4 temas desta álbum. Há artistas que usam vivências pessoais nos seus temas, mas como a maioria das minhas músicas são em relação a corações partidos, e como eu nunca tive nenhum desgosto amoroso.. eu acabo por falar naquilo que ouço. Por exemplo, eu acabo por falar nas minhas amigas todas. Inclusivamente escrevi uma das músicas com uma das minhas amigas, e ela escreveu uma que é a "Next to you" e vamos bebendo um bocado das vivências umas das outras. Eu de facto não tenho tido um papel preponderante enquanto letrista no álbum porque na verdade eu só quero mesmo pegar num tema e escrever eu a letra quando eu sentir que tenho realmente algo de interessante para contar. 

Como consegues conciliar o teu trabalho e o estudo?
No início foi um bocadinho mais complicado porque havia muito mais coisas. E na realidade, no último ano, eu estive um bocado parada. Fui aparecendo, mas estive a trabalhar neste segundo álbum e estive a tentar fazer uma coisa com a qual eu me identificasse mais. Eu lancei o primeiro álbum, depois tive muitos concertos, e depois a certa altura eu senti que as músicas davam a entender que eu tinha uma presença que não era a que ía ter. Nalguns momentos parecia, por exemplo, na música Can't Feel Love Tonight, houve uma versão de dança que fizeram, e as pessoas íam para lá saltar e não era isso que eu queria fazer. E então decidimos alterar um bocado o estilo para se adequar um bocado mais a mim. Nessa altura eu tinha a escola... mas não precisava de estar lá sempre, e consegui manter boas notas na mesma. Agora na Universidade, com uma dupla licenciatura, eu ainda não sei bem... estou agora a começar com as entrevistas, rádio, etc., mas tudo bem. Não sei.. vou ter de arranjar tempo, quando se quer o tempo arranja-se! E eu também sei que nunca vou descarrilar nos meus estudos porque os meus pais davam-me um sermão (risos) e nunca íam deixar isso acontecer. Mais depressa me tiravam da música do que dos estudos. Portanto, vou ter de conseguir. 

Já tens 2 videoclips relacionados com este teu novo álbum. Tens um papel mais participativo da decisão dos vídeos? Como é que se processou a criação dos vídeos?
Não, eu nos vídeos não tenho opinião. Não é que não ma dêem, mas eu de facto não tenho. Eu não sei como é que se produzem vídeos, eu não sou boa nisso, e portanto na parte da música, sim senhora opino e na parte dos instrumentos também, agora, deixo quem sabe fazer! Desde que não me sinta desconfortável! Se me pedissem para fazer uma coisa que eu sei que me faria ficar desconfortável, eu ía-me pronunciar. Eu vou fazendo o que me dizem porque realmente não percebo como se processam as coisas. Não vou fingir. Também não gostava que alguém chegasse e me dissesse como é que eu havia de cantar a minha música. (risos)

A tua música tem estado bastante associada à novela “Amor Maior”. Como foi quando soubeste que a tua música faria parte de uma novela tão querida pelos portugueses. 
Sim, e já tive outras duas músicas noutras novelas. Estas coisas acontecem através da editora/discográfica. Por acaso as pessoas dizem-me que várias das minhas músicas dão para estas coisas, porque parecem acompanhar algum tipo de enredo. Então quando a discográfica me manda mails a dizer "Olha a SIC quer usar isto" eu respondo sempre "Sim!" Nem olho para as condições porque eu acho que é sempre bom para mim. As pessoas depois acabam por associar a música às personagens e assim criam uma relação mais próxima com a música do que teriam se só a ouvissem na rádio por exemplo. E eu acho isso espectacular. Vejo sempre, acho um máximo! E depois acho engraçado quando vou ver os comentários às minhas músicas, no youtube e no facebook, e alguém diz "ah o Francisco e a outra trouxeram-me aqui" e eu acho um máximo (risos). 

Por acaso eu reparei nisso, quando fui ao youtube e vi pessoas a referir nos comentários que chegaram a determinada música por causa de algumas personagens...
Acho mesmo piada porque acho que as pessoas de facto associam aquela música a determinadas personagens.. Eu acho isso espectacular. 

Este disco surge 3 anos depois do anterior. Como era a Kika na altura e como está ela agora em termos musicais?
Eu acho que há imensas diferenças. Em particular, e a mais óbvia, é que a minha voz mudou imenso. É que eu sou muito nova e nestes 4 anos, claro que a minha voz engrossou... Lembro-me perfeitamente quando a minha irmã me disse "olha, vamos ouvir outra vez o teu primeiro álbum" e eu ouvi e disse "Meu Deus, eu não me lembrava da minha voz ser assim". Disseram-me que pareço mais velha, mas mentiram-me, porque eu vou ouvir e de facto a minha voz parece a de uma criança. Essa é a diferença que eu acho que, obviamente, se nota muito. A nível pessoal, acho que ganhei mais conhecimentos a nível de música. Fiquei mais ciente de tudo a nível dos instrumentos. Fiquei com uma opinião muito mais informada sobre o que queria ou não para as minhas músicas, e também com uma confiança muito maior para expor essa minha opinião. Antes os músicos diziam: "Vamos fazer assim" eu achava que não gostava e dizia-lhes, mas eles respondiam que gostavam a eu acabava por ceder. E agora, como sinto que já percebo mais, já tenho outra confiança para dizer que não gosto mesmo de algo. Ganhei assim maior intervenção no processo de gravação e de criação, sobre os estilos e ritmos das músicas. Nesse sentido fiquei então mais confiante e mais interventiva. Mas isto é algo que ocorre mais no background. As pessoas não vão propriamente aperceber-se disto. Mas pelo menos assim tenho ideia que faço agora uma música que se adequa muito mais ao que eu quero fazer

Por fim, o que é que as pessoas podem esperar deste teu novo trabalho?
É claro que eu sou suspeita, mas eu gosto mesmo muito do álbum! O disco tem muita música, 16! E na altura, nós não sabíamos onde é que havíamos de cortar. É um sentimento óptimo para nós, perceber que não há nada que quiséssemos retirar dali. Já no primeiro álbum isso não aconteceu. No primeiro álbum nós andávamos à procura de músicas para fazer o álbum. Aqui foi o contrário. Nós a certa altura tínhamos cerca de 20 músicas. Acho que o álbum tem, sobretudo, uma sonoridade muito mais coesa. No primeiro disco isso já não acontecia. Havia músicas que se destacavam, como se fossem de uma outra artista, se as pessoas não soubessem que estavam no mesmo disco. Havia estilos muitos diferentes, e agora acho que as coisas estão muito mais homogéneas.. as letras estão lindas (e não fui eu que escrevi por isso posso dizê-lo).. histórias lindas... 
E o nome do CD "Love leters" [Histórias de amor] tem mesmo a ver com isso. Todas as músicas são uma espécie de carta escrita por alguém para alguém... Não foram escritas por mim, mas eu interpreto-as como se fossem. Portanto acho que há muitos sentimos naquelas musicas.. espero que as pessoas gostem! É um trabalho que reflecte muito aquilo que eu sou e a artista que eu quero ser!

terça-feira, 7 de março de 2017

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123º Entrevista do FLAMES: Corvos


Corvos

Os Corvos são uma banda portuguesa muito original. Este ano celebraram 18 anos de carreira. Este pareceu ser o pretexto perfeito para uma conversa aqui no FLAMES. 

A todos os artistas o FLAMES pergunta...

Quais são os artistas que mais vos inspiram? 
Individualmente todos temos os nossos gostos pessoais, mas poderei afirmar que serão todos aqueles artistas que tentam fugir, com as suas composições, do fácil e imediato, que tentam evoluir e inovar a música rock em outras direções. 

Há algum local onde gostariam muito de poder actuar? 
Em Portugal já percorremos um belo caminho, e já tocamos em quase todas as salas. No estrangeiro também já fizemos alguns espectáculos em salas maravilhosas... ainda não fomos ao Royal Albert Hall e ao Sydney Opera House, seria interessante lá tocar. 

Lembram-se de alguma situação caricata que tenha ocorrido numa das vossas actuações? 
Temos algumas, cortarem-nos o som a meio do espectáculo em Alcobaça, a corrente eléctrica falhar em Sintra, mas melhor mesmo foram espectáculos anunciados em algumas localidades que nós nem sabíamos que estavam para acontecer. Soubemos por amigos que nos contactaram a dizer que iam aparecer, para nossa grande surpresa. Em 18 anos muita coisa pode acontecer... 

Lembram-se da primeira vez que aturam todos juntos? Como foi? 
Como Corvos, a primeira aparição foi no espectáculo dos 20 anos de carreira dos Xutos e Pontapés, no Pavilhão Atlântico. Estávamos meio receosos da reacção do público, mas foi melhor do que nós alguma vez tivéssemos imaginado. Foi um momento que nunca nos iremos esquecer, cerca de 18 mil pessoas a ouvirem um quarteto de cordas e a cantarem connosco, magnífico. Todas as possíveis dúvidas que tínhamos desapareceram nessa primeira aparição... 

Que mensagem gostariam de ver ser erguida num cartaz durante um concerto vosso? 
Pergunta muito curiosa, sinceramente nunca tinha pensado nisso... talvez "viva a música portuguesa e os músicos portugueses" 

Porque escolheram este nome para a vossa banda? 
Tivemos algumas sugestões durante a produção do primeiro álbum, que foram prontamente eliminadas. Quem sugeriu o nome "Corvos" foi o nosso primeiro violoncelista, Carlos Costa, que foi logo aceite. Visto usualmente andarmos vestidos de preto e tocarmos de braços levantados, como se fossem asas, achamos que era o nome ideal. O facto do animal ter alguma carga mística também ajudou na decisão.


Aos Corvos o FLAMES pergunta...

Normalmente o que é que vos inspira para um álbum?
O que nos inspira verdadeiramente, são as pessoas que nos têm acompanhado ao longo da nossa carreira, o público esteve sempre presente, e sempre fez questão de nos motivar a prosseguir, a fazer mais e melhor. Cada álbum é dedicado a eles.

Vocês completaram 18 anos de carreira! Alguma vez pensavam que iam chegar aqui?
A verdade é que não, tem sido um caminho com muitos cruzamentos e encruzilhadas mas que de uma maneira ou outra nos tem mantido vivos e muito orgulhosos do que fizemos até hoje.

Como é possível manterem o interesse dos vossos fãs depois de quase 2 décadas de carreira?
Talvez fosse melhor perguntar-lhe a eles... mas temos a nossa ideia do porquê... sempre tivemos muito cuidado e respeito pelo assunto música, a nossa formação académica assim o obriga. Acho que conseguimos transmitir o gosto que temos em tocar para uma audiência, e conseguimos também transmitir o empenho, dedicação e respeito que qualquer músico deve ter para com o seu público.

Depois de tantos concertos e tantos palcos pisados, o que vos mantém motivados?
Sem dúvida a música que fazemos, o gosto de tocar o nosso instrumento e o prazer imenso de poder partilhar as nossas ideias musicais com todos os que nos queiram ouvir.

Os vossos fãs são os mesmos do início ou sentem que a cada álbum publicado conquistam novos seguidores?
Temos mantido os fãs do início e temos conquistado novos, sem dúvida. Em cada álbum novo, em cada espectáculo, temos sempre pessoas que vêem ter connosco surpreendidas com o que fazemos, fazendo questão de nos dizerem que ganharam mais um fã. Para uma banda instrumental com nós, ouvir tais palavras é tudo. A motivação nunca vai abaixo. Aproveito a ocasião para agradecer a todos vocês, o carinho demonstrado, sem ele, nós já não andávamos por cá.

Que projectos têm para o futuro?
Continuar, fazer mais música portuguesa, mais álbuns, mais espectáculos. Ideias não nos faltam, sempre fomos muito imaginativos. Em breve iremos iniciar a produção de mais um álbum, estejam atentos. Temos a nossa página no facebook, CorvosMusic, activa e funcional para quem queira saber notícias mais rapidamente, são todos bem vindos.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

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122º Entrevista do FLAMES: MOMO


MOMO


A 10 de Fevereiro de 2017 o mundo ficou a conhecer o novo álbum de MOMO, artista internacionalmente reconhecido por artistas como Patti Smith. Foi neste contexto que surgiu a nossa conversa... e hoje partilhamos convosco o que Marcelo Frota (em arte MOMO) nos referiu... 

A todos os artistas o FLAMES pergunta...


Quais são os artistas que mais o inspiram? 
Quando comecei muito novo a tocar violão no Brasil, aos 3 anos de idade, eu gostava muitas das coisas de Bossa Nova, Tom Jobim, Vinicius Morais, Marcos Valem, comecei assim… tocando as músicas do Caetano, do Gilberto Gil. Mas na adolescência o meu irmão foi para os Estados Unidos e quando ele voltou de lá ele trouxe muitas coisas do rock metal e rock alternativo: Pixies, Pavement, The Breathers, algumas bandas de rock e obviamente do grunge como os Nirvana… mas eu não sei se posso dizer que isso são influências! Eu escutei um pouco de tudo mas se eu fosse falar de artistas que eu tenho como referências posso falar de Nick Drake ou Leonard Cohan de quem gosto muito! Um cantor de música pop americana que é um compositor maravilhoso é Berth Baker, que eu adoro.

Há algum local onde gostarias muito de poder actuar? 

Gostaria que a minha música chegasse cada vez a um maior número de ouvintes. Mas gostaria de tocar mais na América do Sul. Como músico acabo tendo muitos eventos para brasileiros que vão para os Estados Unidos ou que vão para a Europa. Fui muito aos Estados Unidos fazer shows e agora Portugal, Espanha.. mas eu acho que na Argentina talvez seria um local onde eu gostaria de tocar, mais pela questão da proximidade ali com o Brasil, da cultura deles… e de fugir um pouco ao habitual... Venezuela, Colômbia, Argentina, por aí. 

Lembra-se de alguma situação caricata que tenha ocorrido numa das suas actuações? 
Caricata não, mas uma coisa muito bonita que aconteceu foi quando eu estava tocando na Filadélfia em 2009… 
Eu comecei a tocar violão por causa de um amigo. Uma vez eu fui brincar na casa dele, eu tinha uns 13 anos, e eu vi o irmão dele tocando violão. Fiquei impressionado vendo ele tocar. Eu era muito novo e a partir dali eu juntei dinheiro e comecei fazendo aulas com o professor dele. Esse rapaz depois viajou, saiu do Brasil, foi estudar fora e eu sabia que ele estava nos Estados Unidos mas não sabia onde… aí eu estava tocando na Filadélfia e eu não via ele há mais de 10 anos e ele apareceu no show. Quando vi ele chegando comecei a ficar emocionado, comecei a chorar, agradeci a ele… porque eu já não via ele há anos e ele foi o motivo pelo qual eu entrei na música e comecei a tocar violão. Foi um momento muito bonito. 

Que mensagem gostaria de ver ser erguida num cartaz durante um concerto?
Essa é uma pergunta boa (risos)... mas é difícil. Algo tipo “Tente ficar mais no palco”, ou “Fica mais”, “Toca mais 10”, eu adoro ficar no palco. Fico chateado por ter de sair, aquele momento é único. No palco a vida ganha todo o sentido para mim. Ali eu sinto realmente o porquê de continuar, de fazer disso uma profissão. Ali tudo faz sentido, tudo se complementa, tudo se completa. Então talvez “Toca mais 10”, “Fica mais uma hora”, “Fica mais duas horas”. Não me interessa nada de “Ah que bonito”, “Você é lindo”, nada disso!

Qual o significado de MOMO? 
Quando eu comecei, assinava os meus discos como Marcelo Frota. Eu fazia uns discos e já tinha lançado algumas coisas e depois eu comecei a fazer o “A Estética do rabisco” que foi o primeiro disco com o nome de MOMO que é de 2006. Quando eu estava fazendo esse disco eu estava fazendo uma coisa muito diferente do que eu tinha feito anteriormente. Senti que não era a mesma pessoa que estava fazendo esse disco. Parecia que o disco vinha de um outro lugar. E aí eu pensei "o Marcelo Frota não faz muita coisa nesse disco, isto é uma outra coisa"... Assim, senti que precisava de um novo nome, que fosse de fácil entendimento e pronúncia em qualquer parte do mundo para marcar essa nova fase. Ainda para mais, na época tinha aquele livro “Momo e o Senhor do Tempo” do Michael Ende, que é um livro muito bonito. Era um livro que eu tinha lido e que tinha a figura do rei MOMO, que é uma figura do Carnaval. É uma figura engraçada e carnavalesca. E esse disco era muito pesado, eu achava que esse nome era um contraponto... não diria mais divertido, mas que tivesse uma certa leveza! 
E mais, Momo também é a deusa do sarcasmo na mitologia grega, e eu sou uma pessoa muito engraçada no meu dia a dia, uma pessoa divertida. Então este nome tem um pouco de mim também. Depois da criação daquele disco, assinar Marcelo Frota deixou de fazer sentido… Foi quase como a criação de um alter ego. Criando um outro nome você consegue de uma certa forma se proteger. Eu uso coisas muito pessoais nos discos e esse disco era muito auto referente e então eu criei uma forma de me distanciar um pouco e de me proteger.

Ao MOMO o FLAMES pergunta… 


Os seus últimos álbuns mereceram rasgados elogios um pouco por todo o mundo, incluindo Patti Smith. Sente o peso dessa responsabilidade neste novo álbum? 
Não, eu acho que não sinto muito. Estou indo no 5º disco, se for contando com os discos anteriores, de bandas antigas com quem trabalhei, eu tenho mais de 7 ou 8 discos, então acho que nisso eu estou ficando um pouco acostumado e eu acho que não existe um peso.
Eu acho que nesse disco o desejo maior é que ele chegue ao maior número de pessoas, independentemente de faixa etária, de idade, de língua...
Os meus discos sempre foram bem recebidos pelo público em geral, não só brasileiro como mundial. Sempre tiveram esse tipo de carinho. Eu acho que este disco tem uma vontade minha de ecoar num público maior. Então não sinto um peso ou uma responsabilidade…

Em que é que este álbum é diferente (ou semelhante) dos anteriores? 
Este disco é um disco mais solar, não é de introspecção. É um disco mais para fora, e ele tem muito balanço, muito ritmo, muito graças ao Marcelo. É a continuação de busca dele como produtor. Acho que o Marcelo trouxe toda a sua musicalidade. E as composições também foram escolhidas a dedo. Tínhamos muitas músicas e a gente escolheu 10 de cerca de 20. Foi um repertório difícil de ser escolhido, contrariamente a discos anteriores em que eu tinha um repertório mais fechado. 

Este novo álbum tem músicas em português e apenas uma (Song Of Hope) em inglês. Porquê esta escolha de uma música noutra língua? 
Há algo meio intrínseca entre a letra e uma música. Quando eu crio a melodia começo a cantar alguma coisa, e às vezes eu acho que essa letra não é em português, mas sinto que é em inglês. O que aconteceu é que quando essa melodia nasceu já estava na cara que a letra era em inglês. Era uma melodia que cabia em inglês só, não podia ser em português. Era uma melodia que tinha como característica principal algo da música americana, da língua inglesa mesmo. Como eu não falo francês ou espanhol… talvez se eu falasse também naturalmente fizesse música em francês e espanhol. Mas isso é uma coisa em que eu vou pela melodia, e essa sabia que aquela música era em inglês quando ela nasceu.

Para o aparecimento deste disco, houve imensas pessoas envolvidas, entre elas a Rita Redshoes... há mais algum artista português com quem gostasses de vir a trabalhar? 

Sim, o Camané claro, que na verdade faz parte do disco. Mas eu gostaria de ver um dia ele a cantar uma música minha. Ou pela Ana Moura também. Eu sou fã dela. Mas eu gosto da Rita, gosto da Márcia, do Tiago Bettencourt, são pessoas que eu gosto, que conheço pessoalmente e acho que num futuro breve pode ser que haja algum encontro musical.



Alguma destas músicas lhe é mais querida ou mais chegada por algum motivo?
Eu gosto de todas. Tenho um carinho especial e diferente por cada uma delas. Todas têm uma história e eu lembro de como cada uma delas nasceu todas. Não poderia eleger uma como sendo a mais especial. Todas têm o seu jeito.


Porque este nome para o álbum
Ele está dentro de uma letra, na música do “Pássaro Azul”. Só foi mudado o acento tónico na sílaba.
Na verdade a letra diz “voa voa pássaro azul” mas é “voa, voá”, como se usa na prosódia. Mas eu acho que em Cabo Verde se escreve assim, em vez de “voar” eles botam “voá”. Mas é a metáfora dessa minha vinda para cá, de ter atravessado esse oceano, vir para Lisboa, da mudança de vida…

Até onde é que ainda falta voar? Até onde almeja chegar? 
Eu quero viver no aqui e agora: o presente. Está tudo bom, está tudo certo. Viver o presente mesmo, com intensidade! E trabalhar cada vez mais, compor mais… o meu maior desafio, a minha grande alegria e prazer é compor mais, trabalhar mais. Acho que é isso: continuar fazendo os meus discos, trabalhando e claro, como eu te falei, tentar fazer chegar mais perto do coração das pessoas. Isso é o sonho de qualquer artista, quer dizer, eu acho que é. Qualquer um que lança um disco quer ser ouvido. Mas eu não digo que é isso que me falta. Este é só um desejo, que eu acho que quero que aconteça. 

Um artista faz um trabalho unicamente com base naquilo que sente ou de alguma forma tenta adaptar aquilo que sente ao que o público procura naquele momento?
Pois é... Eu acho que até agora fiz muito o que eu quis mesmo! Aquilo que sinto. Nunca trabalhei com uma pressão, uma linha editorial, uma deadline ou um prazo… é claro que a gente cria isso na gente, né? Eu crio a minha meta dentro da cabeça. Nesse disco o Marcelo ajudou a trazer essa luz, essa coisa um pouco mais solar, mas isso para mim é um movimento natural, que acontece. Acho que acontece naturalmente, eu acho que qualquer tentativa de fazer isso de uma forma não natural, forçada ou muito racional é perigosa. Acho que uma boa obra, um bom trabalho, um bom disco, ele tem dois lados: consegue satisfazer não só o artista como também o público. E acho que quando essas duas coisas acontecem, o objectivo é conquistado. Se é que existe objectivo! Eu acho que existe. Qualquer pessoa que lance um disco ela tem necessidade de comunicar, né? Senão, fica em casa, por conta própria, e não lança. Tem uns artistas, por vezes, que fazem isso e que eu admiro. Eu acho que a arte e o mercado é uma coisa que se complementa, uma obra que se concilia. Mas primeiro tem que gostar, senão como é que os outros vão entender? Acho que quando se gosta do que se faz, isso fica muito impresso e o público sente. É a tal questão da verdade, que é uma coisa que também já está démodé, né? É muito subjectivo, mas eu acho que é isso: fazendo aquilo que se gosta, o público sente.

Obrigada ao Marcelo (MOMO) pela entrevista e simpatia. Podem ouvir o disco aqui :) 

domingo, 8 de janeiro de 2017

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Entrevista: Blogue "O livro pensamento"


Entrevista 
Blogue "O livro pensamento"


Conheci a Edite do blogue "O livro pensamento" no nosso clube de leitura (para mais informações clicar aqui).

Recentemente a Edite decidiu entrevistar-me. Foi uma honra para mim e uma experiência muito agradável. Resta-me agradecer-lhe não só a oportunidade como as palavras que me deixou no seu blogue. Deixo o link para o caso de quererem espreitar a entrevista :) 
Obrigada Edite

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